Uso de tecnologias reprodutivas em bovinos ao longo do tempo

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Publicado em: 28 de fevereiro de 2019
Uso de tecnologias reprodutivas em bovinos ao longo do tempo

Com o passar dos anos, a demanda por melhora genética do rebanho e a redução do intervalo entre prenhezes deu espaço a uma nova tecnologia no mercado: a produção de embriões In Vitro. Conhecida como PIV (Produção de Embriões In Vitro) ou mais popularmente como FIV (Fertilização In Vitro), esta técnica inicialmente surgiu com o objetivo de tratar a infertilidade em humanos e, posteriormente, foi aplicada a animais. Assim, os primeiros registros da técnica foram registrados há 40 anos em humanos e desde então muitos avanços foram alcançados.

A primeira tecnologia reprodutiva aplicada a bovinos foi a Inseminação Artificial (IA), que começou a ser utilizada no início dos anos 1900. O objetivo desta técnica era obter o melhoramento genético do rebanho por meio do uso de sêmen de alta qualidade. O surgimento dessa tecnologia causou uma revolução no campo, pois além dos benefícios genéticos a IA tornava desnecessário ao produtor a criação de touros. Contudo, apesar da melhora reprodutiva do rebanho, a inseminação artificial não era um método tão eficaz porque era necessário esperar e reconhecer o estro natural de cada animal.

Com o objetivo de acelerar o melhoramento genético, surgiu também a técnica de superovulação e coleta dos embriões, onde uma vaca superestimulada pode ser inseminada e produzir vários embriões, os quais são lavados e transferidos para outras receptoras. Desta forma, era possível obter-se mais de um embrião por ciclo da mesma vaca, possibilitando um aumento da prole de animais geneticamente superiores com maior rapidez. Essa prática se iniciou entre os anos 1940 e 1950, mas só foi ser utilizada em larga escala a partir de 1970.

Com o avanço da tecnologia, surgiu no mercado a possibilidade de utilizar a inseminação artificial aliada ao controle estral. A opção dos produtores para gerar prenhezes mais rapidamente passou a ser a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF), na qual os animais são sincronizados e inseminados artificialmente. A vantagem desta técnica em relação à inseminação artificial é reduzir o intervalo entre prenhezes, já que os hormônios administrados são capazes de sincronizar o estro dos animais, facilitando o manejo e melhorando o índice de prenhez em animais cada vez mais desafiados. Por consequência, têm-se uma redução no intervalo entre partos e melhoramento genético, porém a passos lentos. No Brasil, essa tecnologia ganhou espaço no campo justamente por proporcionar um melhoramento genético gradual e em pequena proporção a cada geração produzida.

Com os avanços da tecnologia, o mercado começou a abrir espaço para a FIV em bovinos. O objetivo desta técnica era melhorar as deficiências das técnicas anteriores, levando a um rápido melhoramento genético do rebanho em um curto espaço de tempo. Comparado com a IATF por exemplo, alguns autores defendem que o tempo para um determinado melhoramento genético de um rebanho que seria de 30 anos pode ser reduzido a apenas 3 anos com a utilização da FIV. Esta técnica consiste em coletar os oócitos (células reprodutoras femininas) dos ovários das vacas e fazer o processo de maturação In Vitro, que torna o oócito competente para ser fertilizado. Após a maturação, o oócito é submetido a fertilização In Vitro, no qual o sêmen escolhido pelo cliente possui grande papel no melhoramento genético do rebanho. Em seguida, os zigotos presuntivos são submetidos ao cultivo In Vitro por sete dias após a fertilização e os embriões produzidos são transferidos para receptoras.

O primeiro bezerro de FIV foi produzido em 1982 por um grupo que utilizou métodos cirúrgicos para recuperação dos oócitos. Os gametas foram submetidos a fertilização In Vitro e transferência dos embriões. Quatro anos mais tarde iniciou-se a coleta de oócito por laparoscopia.  Esta técnica permaneceu em uso por dez anos, porém, como é uma técnica muito laboriosa e invasiva acabou sendo substituída pela Opum Pick-Up (OPU), uma aspiração guiada por ultrassom via transretal que foi rapidamente disseminada e é utilizada amplamente até os dias de hoje.

Muitas pesquisas foram realizadas para aprimorar a técnica de FIV, sendo a grande maioria realizada com ovários de abatedouro. No início das pesquisas, o grande desafio foi encontrar um meio de cultura que suportasse a maturação oocitária e o posterior desenvolvimento do embrião. Surpreendentemente, o primeiro meio de maturação a ser utilizado amplamente nas produções ainda é o meio de referência mundial. Nos anos 1990, os resultados das pesquisas mostraram que os meios de cultura do embrião após a fertilização afetam o fenótipo dos bezerros. A síndrome do bezerro grande, por exemplo, foi associada ao uso de soro fetal no meio após a fertilização. Portanto, ainda havia espaço para melhora no processo de FIV, colocando o foco no cultivo embrionário.

Com o passar dos anos e o aumento das pesquisas, muitos trabalhos foram feitos com suplementações aos meios de cultura e por volta dos anos 2000 ainda havia dúvidas se os meios seriam a chave do processo. Sendo assim, as atenções se voltaram para a qualidade oocitária como potencial limitador da FIV. No ano 2000, iniciou-se um movimento de pré-tratamento das doadoras antes da coleta dos oócitos, no qual os animais são superestimulados com a combinação correta de hormônios garantindo um maior número de oócitos na fase correta de desenvolvimento. Esta técnica permitiu uma excelente performance dos mesmos meios de cultura utilizados anteriormente, aumentando o sucesso de produção de embriões em até duas vezes. Portanto, a chave do sucesso para uma boa produção In Vitro começa pela qualidade oocitária, fator dependente do manejo e alimentação do animal e diretamente relacionado a população folicular intrínseca de cada vaca e ao número de ondas foliculares. No Brasil, o pré-tratamento ainda não é um método muito utilizado, porém em países como o Canadá esse método é extremamente comum.

Nos últimos anos, entramos em uma fase em que a seleção genética faz parte essencial do processo de FIV. Produzir mais embriões de animais com melhor potencial genético tem se tornado essencial. Para isso, a seleção dos animais de interesse e o investimento em pré-tratamentos dos animais é imprescindível.  Hoje é possível selecionar os animais e até os embriões com maior potencial genético, levando a um rápido melhoramento do rebanho. Essa possibilidade também levou a um aumento do número de laboratórios de FIV nos últimos anos, principalmente na América do Sul, maior polo de produções de embriões In Vitro do mundo. Em 2015, pela primeira vez na história, o número de embriões produzidos In Vitro superou os embriões In Vivo. O Brasil é o maior produtor mundial, atingindo a marca de mais de 353 mil embriões produzidos no ano dos 612 mil produzidos em todo o mundo.

No último relatório da IETS em 2016, observamos um pequeno aumento do volume de embriões produzidos na América do Sul para pouco mais de 378 mil. Observou-se uma ligeira queda na produção brasileira, tendo sido produzidos quase 347 mil embriões. Por outro lado, mais embriões foram transferidos, quase 276 mil em 2016 contra 269 mil em 2015. Essa ligeira queda pode ser justificada pela situação econômica do país.

É importante observar como o mercado de FIV no Brasil mudou ao longo do tempo. Inicialmente, a maior parte dos embriões produzidos correspondia a raças de corte. Em 2007, apenas 10% dos embriões das FIV eram de raças leiteiras. Já em 2016, esse quadro se inverteu, demonstrando uma produção de embriões provenientes de raças leiteiras já superior a 50% da produção brasileira. O mesmo pode-se observar em relação às raças trabalhadas. Em 2005, mais de 90% dos embriões de FIV correspondiam a embriões Bos Indicus, especialmente a raça Nelore. O mercado de Bos Taurus começou a ser mais importante por volta de 2015, quando os embriões de Bos Taurus correspondiam a mais de 51% do total de embriões produzidos. Atualmente essa tendência se mantém e continuamos registrando a predominância de embriões produzidos das Raças Bos Taurus e também seus cruzamentos.

No Brasil, nos dois últimos anos a produção de embriões de FIV parece ter desacelerado seu crescimento devido à crise financeira vivida pelo país. Por outro lado, a introdução da tecnologia de FIV no rebanho leiteiro, por meio de projetos financiados por cooperativas, tem crescido principalmente no Sul e Sudeste do país. Já na região centro-oeste, a demanda por embriões de FIV da raça Senepol tem aumentado devido a sua característica de resistência ao clima tropical e subtropical.

Nosso país é dono do maior rebanho comercial bovino do mundo e o investimento em novas tecnologias para melhoramento genético é essencial nesse processo. A técnica de FIV permite inúmeras vantagens ao produtor, como um grande número de embriões produzidos de uma mesma doadora, intervalo reduzido entre as coletas, maior qualidade genética do embrião, aumento da produtividade dos animais por meio da escolha dos acasalamentos, aumento na proporção de nascimento de fêmeas ou machos, de acordo com a necessidade do cliente e o aproveitamento de animais muito jovens ou mais velhos que não seriam utilizados naturalmente para a prenhez.

Apesar de essa técnica ser um pouco mais custosa, com o planejamento correto, escolha de doadoras e sêmen de qualidade é possível criar rapidamente um rebanho de alta produtividade, gerando lucro ao pecuarista que excede facilmente o custo gerado pela técnica. O Brasil vem registrando um crescimento de 28% no número de embriões de FIV desde 2006 e estima-se que o crescimento médio anual seja de 5 a 7% ao ano. O potencial do mercado de FIV é enorme e para um marcado em expansão como o brasileiro as possibilidades são enormes. Hoje, com a técnica e pecuária tem um novo horizonte repleto de possibilidades.

Por: Drª. Thaís Alves Rodrigues

Pesquisadora em reprodução animal do Cenatte Embriões, doutora em Biologia Química pela USP com especialidade em Fertilização In Vitro

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