O prejuízo pode estar nos cascos

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Publicado em: 6 de julho de 2018
O prejuízo pode estar nos cascos

Lesões nos cascos podem afetar o desempenho do animal e aumentar o descarte involuntário, causando grandes prejuízos. Com manejo correto e nutrição adequada, é possível evitar esse problema

Com as margens de lucro cada vez mais apertadas, é preciso intensificar os cuidados com o rebanho para evitar qualquer interferência no desempenho produtivo ou reprodutivo do animal. E uma das causas desses problemas pode estar justamente nos cascos do bovino. “Os prejuízos causados por doenças nos cascos são bastante significativos. Dados de observações a campo feitas por mim ao longo de 12 anos trabalhando com a raça Senepol apontam uma perda de 30% a 35% em desempenho, tais como queda no ganho de peso, na conversão alimentar e imunodepressão, dentre outros problemas”, esclarece Silvio Mudim, professor de Clínica e Cirurgia em grandes animais do Centro Universitário do Triângulo (Unitri).

Nas últimas décadas, os problemas relacionados às enfermidades de cascos em bovinos vêm ganhando importância devido ao seu alto impacto sobre os gastos nas fazendas, sendo considerado um dos causadores de perdas econômicas na pecuária.  Com a ampliação dos confinamentos na pecuária de corte, o problema está se tornando cada vez mais comum devido à aglomeração e à umidade presente no local. “A umidade excessiva favorece o amolecimento dos cascos, tornando-os mais frágeis e suscetíveis a traumas. Em animais mais suscetíveis às bactérias presentes no solo, a contaminação pode gerar uma dermatite digital ou interdigital”, explica Mundim. A dermatite digital é uma infecção altamente contagiosa, invasiva e proliferativa da epiderme, que ocorre próximo à junção da pele e do tecido córneo, na região flexora do espaço interdigital dos bovinos. Já a dermatite interdigital ocorre entre os dígitos dos bovinos, causando erosão cutânea lenta com desconforto, mas inicialmente sem claudicação.

Até mesmo um carrapato pode contribuir para o surgimento de doenças nos cascos. Se o parasita se instalar entre a pele e a coroa do casco, pode abrir uma janela que acaba possibilitando o aparecimento de bicheiras. Daí, as bactérias invadem a ferida ou podem descer para a falange, levando à perda ou necrose do casco. “São manifestações que vão começar de um problema ambiental ou de uma parasitose. Mas, como é um animal de corte, quando o tratador tomar conhecimento do problema, a situação já estará crônica, podendo levar à amputação de falange”, alerta o professor da Unitri.

Já nos sistemas extensivos, as lesões podem ocorrem com maior frequência em decorrência de traumas, ocasionados por batidas em troncos e galhos de árvores nas pastagens, relevos montanhosos e irregularidade no piso dos currais.

Um sintoma de que o animal está com dor nos cascos é quando ele deixa de fazer a monta. Se estiver no confinamento, deixa de comer e de ganhar peso, o que pode levar até a uma pneumonia. “Essa é só a ponta de iceberg da perda de muito dinheiro”, alerta Mundim.

A mudança na nutrição também pode prejudicar os cascos. A saúde dos cascos está diretamente ligada à quantidade de fibras, carboidratos e proteínas na dieta. As fibras são responsáveis por estimular a ruminação e incrementar a produção e a ingestão de saliva que, por sua vez, contribui para o tamponamento e a manutenção do pH ruminal. Quando a alimentação é rica em carboidratos que fermentam rapidamente, em proteína e tem baixo teor de fibras, isso favorece a ocorrência de acidose ruminal, que causa a laminite, processo inflamatório agudo que atinge as estruturas sensíveis da parede do casco e resulta em claudicação (manqueira) e deformidade permanente deste.

Para evitar a acidose ruminal, é preciso formular uma dieta com qualidade e quantidade de fibra adequada, tomando-se sempre muito cuidado para não haver excesso de energia e proteína. O produtor pode fornecer ao rebanho uma suplementação que promova o aumento da ingestão de matéria seca, melhore a degradação de fibras, proteínas e amido e reduza a acidose.

O diagnóstico precoce evita que as afecções podais evoluam e causem prejuízos maiores. Por isso, a propriedade deve treinar sua equipe para identificar animais com problemas nos cascos. “A fazenda precisa ter em sua rotina diária o hábito de fazer o rodeio dos animais. É aconselhável treinar uma pessoa para isso. Um bovino que está mancando ou não está indo na linha de cocho para comer pode estar com alguma doença no casco e deve ser avaliado. Se descobertas logo no início, elas são curadas facilmente; mas se ficar crônico, pode levar à perda do animal ou a sua desclassificação em uma prova de desempenho”, ensina. Segundo ele, os tratamentos realizados ainda no início da enfermidade são mais baratos e trazem bons resultados.

O casqueamento preventivo, aliado a uma dieta balanceada e à boa infraestrutura do local, ajuda a evitar doenças nos cascos. Ele pode ser feito regularmente a cada três meses, como nos touros, por exemplo. Nas doadoras, pode ser a cada seis meses. No caso dos animais confinados, é recomendado jogar cal virgem perto do bebedouro e na linha de cocho. Com isso, modifica-se o pH, afastando a possibilidade da bactéria se instalar no casco do animal.

Segundo o professor da Unitri, muitas tecnologias estão surgindo na área de prevenção e diagnóstico da doença, mas ainda têm alto custo, como a ultrassonografia especializada com doppler colorido. “Muitos estudos estão sendo feitos na raça Senepol sobre a genética dos cascos e, no futuro, poderão auxiliar no processo de seleção do rebanho”, observa.

Hoje, já existe um trabalho para identificar marcadores moleculares relacionados à saúde dos cascos, para predizer se o animal tem propensão a ter um afrouxamento do casco e qual a herdabilidade dessa característica. “Quando falamos em casco, pensamos em queratina. Sabemos que alguns animais têm estrutura mais organizada do casco em relação à quantidade de queratina e que isso é um fator genético. Todas essas pesquisas ainda estão no início, mas quem sabe daqui a alguns anos possam estar disponíveis pelo menos para serem aplicadas em grandes raçadores”, diz Mundim.

Fonte: Revista Senepol

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